O Marais, quatro séculos de elegância
Vamos ser honestos: quando visitamos o apartamento da rue Saint-Antoine pela primeira vez, mal olhamos para o interior. Ficamos parados na janela, diante da igreja Saint-Paul. Esse é o problema do Marais: ele distrai você. Então, antes de darmos nossos endereços, deixe-nos contar por que este bairro nos causa esse efeito, quatrocentos anos depois de todo mundo.
Tudo começa em 1605, quando Henrique IV manda traçar a place Royale, a nossa place des Vosges. Uma praça quadrada, trinta e seis pavilhões de tijolos rosados, arcadas para flanar ao abrigo: Paris nunca tinha visto nada igual — uma praça concebida não para o comércio ou as procissões, mas para o prazer de estar nela. A nobreza acorre, e durante um século o Marais se torna o endereço absoluto. Os palacetes se multiplicam: o hôtel de Sully, o hôtel Carnavalet, onde madame de Sévigné escreveria suas cartas, o hôtel de Soubise e seus dourados.
É também a época em que se ergue, a cinquenta metros da nossa porta, a igreja Saint-Paul-Saint-Louis, o grande gesto barroco dos jesuítas, concluída em 1641, inspirada no Gesù de Roma. O próprio Richelieu celebrou ali a primeira missa. Quando o sol do fim de tarde doura sua fachada, entende-se por que alguns dos nossos hóspedes nos escrevem dizendo que passaram a estadia a contemplá-la.
E então a moda passa, como sempre passa. A corte parte para Versalhes, o faubourg Saint-Germain leva a melhor, e o Marais adormece por dois séculos. Seus palácios viram oficinas, depósitos de tecidos, manufaturas; os salões apainelados se enchem de carroças. O bairro se povoa de artesãos, de ourives, de famílias judias do Leste Europeu em torno da rue des Rosiers. No século XX, chegou-se a considerar seriamente demolir quarteirões inteiros, julgados « insalubres ».
Foi esse declínio que o salvou. Ninguém teve recursos para demolir, então tudo ficou. Quando André Malraux faz aprovar, em 1962, a primeira lei sobre os setores preservados, o Marais se torna o grande canteiro de restauração da França: raspam-se os rebocos, liberam-se as vigas, reabrem-se os pátios. Os palácios renascem como museus, as oficinas como galerias.
Hoje, você atravessa esse cenário a cada saída. O Carnavalet conta a história de Paris em dois palacetes, gratuitamente. O Museu Picasso ocupa o mais suntuoso palacete do bairro. A rue des Rosiers ainda perfuma de babka, a rue de Turenne se entregou aos criadores sem perder a alma, e o village Saint-Paul esconde seus antiquários entre quatro pátios que se comunicam.
Nosso conselho, se você vier se instalar conosco: saia uma vez antes das 9 horas. De manhã, antes da abertura das lojas, o Marais volta a ser o que sempre foi: um vilarejo de pedra dourada onde se ouvem os próprios passos. Os habitués fazem sua feira na place Baudoyer, cortam pelo jardim do hôtel de Sully para chegar à place des Vosges e guardam o segredo. Agora, você também o tem.